E depois que a aula termina? O dia a dia das professoras e dos professores no Brasil. Por Sérgio Botton Barcellos

Esse texto saiu a “palo seco” motivado pela questão do “Dia do Professor” no Brasil, mesmo em um dia recesso das aulas da graduação, mas de trabalho com orientações e preparo de aula para um curso de Ensino Profissional Técnico Diria, sem meias palavras e sem idelização que ser professora e professor no Brasil é um exercício diário de resistência e esperança. Em um país em que governantes dizem valorizar a educação, mas que frequentemente negligenciam aquelas(es) que a tornam possível, as(os) professoras(es) o que é um paradoxo constante: entre o ideal e o real, entre a querer trabalhar e a precariedade, entre a importância simbólica e a desvalorização concreta. O Dia da Professora e do Professor, celebrado em 15 de outubro, é mais que uma data comemorativa, sobretudo é um convite à reflexão sobre o sentido de ensinar em uma sociedade marcada por profundas desigualdades, cortes orçamentários e desafios estruturais históricos e persistentes.

O Dia do Professor tem origem em 15 de outubro de 1827, quando Dom Pedro I sancionou a lei que criou o ensino elementar no Brasil. Mais de um século depois, em outubro de 1963, o então presidente João Goulart (1919-1976) publicou o decreto instituindo o feriado escolar do “Dia do Professor” no território nacional. No entanto, mais do que homenagens, o 15 de outubro na realidade em que vivemos no Brasil é um momento de crítica e compromisso. É o dia de lembrar que, sem professoras(es), não há cidadania, ciência e nem democracia. É o dia de reafirmar que a valorização do magistério não é um favor do Estado e nem algo a ser lembrado em ano pré-eleitoral, mas uma condição essencial para um projeto estruturante para um país justo e soberano.

A rotina da maioria das minhas e de meus colegas no Brasil é menos épica e mais de sobrevivência. Acordam cedo, muitas vezes antes do sol e voltar tarde, pegar transporte cheio ou uma carona, enfrentar o calor das salas sem ventilação adequada e o barulho constante de turmas grandes demais. Passar parte do dia equilibrando conteúdo, indisciplina, falta de material, a violência escolar (que é denominada até como epidemia) e cobranças de gestoras(es) e pais. No intervalo, corrige provas, preenche diários e tenta resolver pendências burocráticas. À noite, planeja aulas, responde mensagens, cumpre prazos e, quando sobra tempo, tenta descansar, mas o trabalho o acompanha, na cabeça que não desliga. Não há glamour e nem heroísmo: há cansaço, esforço e uma rotina que exige mais resistência do que inspiração.

Ser professora e professor, no Brasil, é lidar com um sistema que cobra muito, oferece pouco e ainda espera que você esteja animado(a) e dócil. Mesmo assim, as(os) professoras(es) persistem e quem ainda não cansou, adoeceu ou desistiu, tenta transformar a sala de aula em espaço de diálogo, crítica e esperança, insistindo em ver na(o) estudante não apenas um número, mas uma vida em formação.

De acordo com o Censo Escolar de 2023, o Brasil possui no ensino básico mais de 2,3 milhões de professoras (es) na educação básica, sendo 1,8 milhão na rede pública e cerca de 566 mil na rede privada. No ensino fundamental (1º ao 9º ano), as mulheres são 77,5% dos 1,4 milhão de docentes e, no médio, elas representam 57,5% do total de 545.974. A maior parte delas tem entre 40 e 49 anos (35,2%) – o censo também indica um padrão na predominância dessa faixa etária em todas as etapas de ensino. Mulheres de 30 a 39 anos representam 28,5%, seguidas pelo grupo das que possuem de 50 a 54 anos (12,2%) e das que têm de 25 a 29 anos (8,3%). Docentes com até 24 anos são 3,4%. Apesar das dificuldades, a docência é uma das profissões do país, mais de 97%, com ampla formação em nível superior.

Paradoxalmente, essa qualificação não se reflete em valorização salarial ou social. O piso nacional do magistério, reajustado em 2025 para R$ 4.867,77, ainda não é cumprido em cerca de um terço das redes estaduais e municipais. A remuneração média, considerando uma jornada de 40 horas semanais, gira em torno de R$ 3.500, o que coloca professoras(es) brasileiras(os) quase 50% abaixo da média salarial do que em outros países da OCDE. Na prática, uma professora e um professor no Brasil ganham pouco mais da metade do que recebem outras (os) profissionais com o mesmo nível de escolaridade. Essa defasagem, somada à sobrecarga de trabalho e à falta de reconhecimento, tem levado muitas(os) colegas ao limite: pesquisas indicam que quase 80% já pensaram em abandonar a profissão e mais de dois terços relatam sentimentos de desânimo, insegurança e frustração.

A desigualdade entre professoras(es) no Brasil também se expressa dentro da própria categoria. Enquanto colegas da educação básica, especialmente da rede pública municipal, enfrentam salários baixos, turmas superlotadas e infraestrutura precária, nós professoras(es) do ensino superior, sobretudo das universidades federais, ainda têm remunerações mais altas na maioria dos estados da federação, maior estabilidade e condições de trabalho menos precárias, mesmo que estejamos enfrentando defasagem salarial, cortes orçamentários e sobrecarga acadêmica. Além disso, as diferenças regionais agravam o quadro: uma (um) colega em capitais do Sul ou Sudeste pode ganhar até o dobro de uma (um) colega com a mesma formação no Nordeste. Essa disparidade salarial e estrutural cria desigualdades dentro da própria docência, onde quem educa as crianças e adolescentes em sua maioria, a base de todo o sistema de ensino nacional, é justamente quem tem menos reconhecimento e piores condições para trabalhar.

A desvalorização docente, porém, não se resume ao salário. É também simbólica. A pesquisa do Instituto Península (2022), traz que apenas um quarto da população brasileira acredita que as(os) professoras(es) são valorizadas(os) socialmente. E, embora 98% das(os) brasileiras(os) reconheçam que professores(as) podem transformar vidas, muitas(os) ainda consideram a profissão menos prestigiosa do que outras de nível superior. Isso revela mais uma contradição estrutural: enquanto o discurso público exalta a importância da educação, as políticas concretas e a opinião pública continuam a desconsiderar o valor e por consequência o salário do trabalho de professoras (es).

Além disso, a crise na saúde mental que acomete professoras(es) é um dos sintomas mais visíveis do esgotamento do trabalho docente no Brasil. Mais uma pesquisa do Instituto Península (2021) mostra que um alto número de professoras(es) relatam sentir ansiedade ou exaustão frequente, e quase metade apresenta sinais de síndrome de burnout, caracterizada pelo cansaço extremo e pela perda de sentido em relação ao trabalho. A pressão por resultados, a sobrecarga burocrática, a falta de apoio psicológico e a violência simbólica, quando não é física, dentro das escolas formam um cenário de adoecimento. Muitas(os) professoras(es) convivem com depressão, insônia e crises de pânico, mas seguem trabalhando por medo de perder o emprego ou por compromisso com as(os) estudantes. Lembrando que o ato e o direito de cuidar da saúde mental, não é luxo. É condição básica para garantir que o ato de ensinar continue sendo também um ato de vida.

Neste mesmo 15 de outubro de 2025 (hoje) o governo federal lança oficialmente a Carteira Nacional Docente do Brasil (CNDB), oficializada via Lei nº 15.202/2025 e válida em todo o território nacional para colegas da educação básica e superior, das redes pública e privada. O documento, que terá formato físico e digital, funcionará como identificação profissional e conterá dados pessoais, foto, informações sobre a instituição de ensino e um código QR para autenticação. No entanto, esse avanço simbólico só será efetivo se vier acompanhado de políticas concretas de valorização: salários justos, planos de carreira, infraestrutura escolar e condições reais de trabalho. Caso contrário, corre-se o risco de que a CNDB se torne apenas mais um documento oficial, mas esvaziado de sentido prático.

Ser professora e professor no Brasil é viver uma tensão constante entre a esperança e o desalento, é ensinar mesmo quando parece que quase ninguém está interessada (o), e seguir resistindo quando tudo convida à desistência. É acreditar que, apesar de tudo, a educação pode mudar vidas. É o ato da boniteza de ensinar e aprender.

Fazendo aqui uma analogia: ser professor(a) também é corrigir provas enquanto maioria dos(as) nossos(as) governantes são reprováveis. Nunca é demais dizer e escrever, mas valorizar as professoras(es) é garantir salário digno, plano de carreira, formação continuada e infraestrutura adequada. É assegurar que o tempo de planejamento, avaliação e estudo seja reconhecido como parte legítima do trabalho. É, sobretudo, compreender que a educação não é gasto, mas investimento na nossa sociedade. Em cada instituição de ensino com boas condições, em cada professora e professor e em cada estudante respeitada(o) e estimulada(o) está a semente de um país justo socialmente.

Meus parabéns a quem insiste em ensinar! E boa sorte a quem acha que a educação melhora sem professoras(es) valorizadas(os) – porque esse, sim, precisa voltar para escola.

Vamos celebrar como pudermos o Dia da Professora e do Professor, sim, e de forma crítica e coletiva. Que seja um dia também de fortalecer lutas, denunciar retrocessos e reivindicar transformações nas condições de trabalho e de vida.

Foto: Luisella Planeta (Pixabay).

Deixe um comentário

O comentário deve ter seu nome e sobrenome. O e-mail é necessário, mas não será publicado.

dez − 2 =